Descobertas
E você nem precisa passar um quarter inteiro pra chegar a uma conclusão.
As mães estão cansadas.
Não preciso de um discovery extenso pra saber que o problema existe, porque os usuários têm conseguido serem mais vocais sobre isso, e temos as redes sociais pra amplificar as vozes, coisa que era impensável há uns anos, e ai da mãe que levantasse essa bandeira. Sabemos também que isso não é responsabilidade das crianças. Nem das férias escolares, embora esse seja um fator sazonal que aumenta a curva das reclamantes.
Recentemente, após um pequeno acidente doméstico (estava arrumando a bagunça de um armário e uma caixa caiu na minha cabeça), precisei visitar o PS. As enfermeiras, uma na triagem, a outra conduzindo o exame, me sugeriram: “aproveitar pra descansar.” Sábado de manhã no hospital: “Descansa, aqui você vai estar em silêncio.” “Descansa, depois do exame vai lá na lanchonete e almoça uma comida quente, tranquila.” “Descansa, aqui tem um banheiro na ala xpto que você pode usar sem ser interrompida.” Eu com dor e medo; lembrando da bagunça que tinha abandonado no quarto, pensando no que eu não ia fazer no sábado porque estava no hospital e sendo acolhida (por outras mães) que provavelmente só queriam estar fazendo um cocô em paz, mas estavam de plantão, longe de suas crias, e provavelmente com todas as tarefas domésticas no backlog pra quando chegassem do trabalho.
Nasce uma mãe, nasce uma culpa e nasce um cansaço (descomunal) porque a conta não fecha. Ainda mais quando as estatísticas nos mostram que a maior parte das mães cria os filhos sozinha e, veja bem, precisamos de uma vila pra criar crianças.
Uma desk research rápida mostra que, no Brasil, 51% das mulheres com filhos são chefes de família. Isso equivale a 46% da força de trabalho no país - que trabalha fora e dentro de casa, sendo parte da economia do cuidado (não remunerado) que geralmente recai sobre mulheres e meninas. Não à toa, elas estão exaustas. As que contam com um companheiro, muitas vezes não podem de fato contar com eles - e junta-se à carga mental habitual o trabalho de gerenciar e delegar tarefas a um outro adulto funcional, de novo sem ser remunerada por isso.
“Mas nossas usuárias precisam descansar, elas clamam por isso. Como a gente pode fazer esse trabalho acontecer?”
Poderíamos entrar aqui numa árvore de oportunidades interessante para explorar esse job to be done, esse problema que nossa usuária quer resolver; mas antes precisamos acordar sobre a métrica que acompanharíamos para saber se estamos perto ou longe do nosso objetivo. Pra chegar nessa métrica, a gente pode explorar os caminhos A, B, C ou D. Mas estamos partindo do viés do usuário: qual objetivo de negócio a gente quer atingir com isso? Por que mães descansadas poderiam ser algo interessante a ser explorado em <INSIRA AQUI SEU MERCADO>?
É natural querer resolver um problema que a gente vê que existe para o usuário - é menos natural parar e pensar por que resolver aquele problema pode ser interessante para o negócio. A gestão de produtos brilha quando faz os dois bem feitos: resolve o problema do usuário gerando valor para o negócio. Senão você vai ser só mais um chato gastando dinheiro e tempo em discovery pra chegar na conclusão que todo mundo já tinha, e ajudando a reforçar o discurso de que produto já não serve pra nada.
Não esqueça: é o valor que você gera pro negócio que paga o seu salário, mas é o valor que você gera pro usuário que faz ele usar o seu produto e gerar dinheiro (ou o que quer que seja, mas geralmente é dinheiro) para que a empresa possa continuar funcionando - capitalismo, bebê.
Na newsletter de hoje, falamos sobre:
Discovery: é a fase inicial do desenvolvimento de produtos onde se busca compreender profundamente o problema que precisa ser resolvido, as necessidades dos usuários e as oportunidades de mercado. Esse processo envolve atividades como entrevistas, prototipagem e validação de hipóteses para assegurar que o produto a ser desenvolvido realmente atenda a uma demanda real e gere valor para o público-alvo.
Leitura complementar:
Desk Research: é uma metodologia de coleta de dados que utiliza fontes secundárias, ou seja, informações já disponíveis, como relatórios, artigos acadêmicos, bancos de dados públicos e conteúdo online. Essa abordagem é eficiente e econômica, sendo utilizada em fases iniciais de um projeto para entender o contexto, identificar tendências e reunir insights sem a necessidade de pesquisa de campo.
Leitura complementar:
Árvore de Oportunidades:
A árvore de oportunidades é uma ferramenta visual utilizada em gestão de produtos para mapear as possíveis oportunidades de desenvolvimento e inovação com base em um objetivo principal. Ela ajuda a dividir um problema em suas partes componentes, identificando áreas onde intervenções específicas podem criar valor. A árvore é estruturada em três níveis: resultado desejado, oportunidades que podem levar a esse resultado, e as soluções que exploram essas oportunidades.
Leitura complementar:
Job to Be Done (JTBD):
O conceito de "Job to Be Done" (JTBD) é uma abordagem centrada no cliente que busca entender o que os consumidores estão realmente tentando alcançar ao usar um produto ou serviço. Em vez de focar em características ou funcionalidades, o JTBD explora as motivações subjacentes e os resultados desejados pelos usuários, permitindo que as equipes de produto desenvolvam soluções que atendam diretamente a essas necessidades.
Leitura complementar:
PS: Tô testando um formato novo, e feedbacks sobre ele são muito bem-vindos (também por comentário ou por e-mail, o que for mais fácil pra vocês :) )


Ou seja: não é vantajoso para o negócio que a mãe descanse. Mães cansadas consomem upgrades, como outra pessoa para limpar a casa ou mesmo um mimo pra lidar com um dia longo. Ótimo texto, mas... e agora? Depois que a gente se autorizar a descansar, como que a gente vai conseguir?
ps. o link para a árvore de oportunidades está quebrado :( https://www.producttalk.org/2020/05/opportunity-solution-tree/