O poder do ainda
Ou: por que devemos brincar mais
Por um bom tempo, nossa casa também foi o lar de muitos gatos — não os de verdade, embora desses também tenhamos por aqui, mas os animados e ultracoloridos Pandy, DJ Risonho, Sereiata, Cake, Carlita, Gatuno e KittyFada. Os gatos da Gaby. Eles apareciam diariamente na televisão ou no telefone, repetindo as mesmas aventuras tantas vezes que algumas falas acabaram ficando na minha cabeça.
“Você não consegue... ainda.”
De início, achei que a mensagem era só sobre aprendizado — sobre ensinar crianças a persistir diante das dificuldades. Growth mindset colorido e palatável para o público infantil.
Mas, anos depois, outra coisa se sobrepõe: no “ainda” mora a possibilidade. Se “você não consegue”, acabou; mas, se “você não consegue... ainda”, alguma coisa se abre.
Podem existir outros caminhos, outras perguntas, uma solução que ainda não enxergamos. Talvez seja o caso de tentar de outro jeito. Ou talvez a gente descubra que estava tentando resolver o problema errado (quem nunca?).
Trabalho com produto há bastante tempo e, curiosamente, uma das habilidades que julgo mais importantes para o dia a dia produteiro não é encontrar respostas. É permanecer curioso por tempo suficiente para fazer perguntas melhores.
Duas semanas atrás resolvi aprender Claude Code com mais afinco. O plano era criar um agente para fazer minhas compras de mercado. A justificativa era aprender e economizar dinheiro. A verdade é que eu só queria brincar com uma tecnologia nova.
Com base numa lista pré-definida, ele compararia preços, encontraria promoções e me ajudaria a economizar sem precisar abrir meia dúzia de aplicativos. Depois, evoluiria para uma lista preditiva que simplesmente saberia o que está faltando em casa com base nos nossos padrões de consumo.
Por alguns dias, achei a ideia excelente (risos). Comentei o que estava fazendo com algumas pessoas e comecei a construir. Quanto mais eu avançava, menos sentido aquilo fazia. O esforço não compensava. A tecnologia era mais interessante do que a necessidade. Então abandonei o projeto algumas linhas de código depois — talvez algumas dezenas. Fim da história.
Ou, pelo menos, era isso que eu teria dito semana passada, ainda irritada por não ter conseguido fazer o agente ficar maravilhoso na primeira tentativa.

Hoje, depois de refletir, com menos raiva e alimentada, observo que a curiosidade (e a necessidade de aprender uma tecnologia nova) me levou por um percurso interessante: primeiro veio uma ideia. A ideia me levou a novas perguntas. As perguntas me levaram para outros caminhos — nenhum deles era o agente de compras.
Nem toda exploração precisa virar entrega. Nem toda curiosidade precisa virar projeto. Nem toda ideia merece ser construída.
Crianças brincam para descobrir. Empilham blocos para ver o que acontece. Misturam tintas para ver que cor aparece. Fazem perguntas sem saber onde elas vão dar. Exploram porque a exploração, por si só, já tem valor.
A gente cresce e desaprende.
Passamos a exigir que toda curiosidade gere resultado. Que toda ideia vire plano. Que todo interesse vire projeto. Que toda brincadeira se torne produtiva. Que tudo tenha ROI projetado e data de início e fim.
Talvez o poder do “ainda” não esteja na promessa de que um dia vamos conseguir. Ele mora na possibilidade. Na liberdade de não saber. Na permissão para continuar explorando.
Porque nem toda curiosidade precisa virar produto. Algumas podem continuar sendo brincadeira. E adultos - definitivamente - precisam brincar mais.


O importante não é achar o One Piece e sim a jornada 🫶
A gente precisa falar mais sobre isso. No mundo capitalista tudo que a gente faz precisa gerar resultado/valor e na verdade a gente só precisa entender que a vida é um grande experimento e que você precisa aproveitar as experiências que você faz todos os dias.
Snacks first. Lembrarei disso. É de brincar mais também.